domingo, 28 de setembro de 2014

Vozes-mulheres



"A voz da minha bisavó ecoou
criança
nos porões do navio.
Ecoou lamentos
de uma infância perdida.
A voz da minha avó
ecoou obediência
aos brancos-donos de tudo.
A voz da minha mãe
ecoou baixinho revolta
no fundo das cozinhas alheias
debaixo das trouxas
roupagens sujas dos brancos
pelo caminho empoeirado
rumo a favela.
A minha voz ainda
ecoa pelos versos perplexos
com rimas de sangue
e
fome.
A voz da minha filha 
recorre todas as nossas vozes
recolhe em si
as vozes mudas caladas
engasgadas nas gargantas.
A voz da minha filha 
recolhe em i
a fala e o ato.
O ontem - o hoje - o agora.
Na voz da minha filha
se fará ouvir a ressonância
o eco da vida-liberdade."

Conceição Evaristo



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